top of page

Problema de pesquisa não se encontra: como parar de procurar e começar a definir

Existe uma cena que se repete em programas de pós-graduação do Brasil inteiro, semana após semana, reunião após reunião. O orientando chega para a reunião de orientação e o orientador pergunta: "como está o problema de pesquisa?" O orientando responde com alguma variação de: "ainda estou definindo." E os dois seguem em frente sem que ninguém tenha nomeado o que está acontecendo de verdade.


O que está acontecendo é uma confusão fundamental sobre a natureza do problema de pesquisa: o que ele é, de onde vem e o que é necessário para tê-lo.

Essa confusão tem consequências reais. Ela prolonga o tempo de formação. Ela gera ansiedade desproporcional nos primeiros meses do programa. Ela cria uma relação de dependência com o orientador que não é necessária nem saudável. E ela impede que o pesquisador assuma a postura autônoma que o doutorado exige desde o primeiro dia.

Este post vai direto ao ponto: o que é um problema de pesquisa, por que você não vai encontrá-lo, e como você constrói um.

A distinção mais importante que você precisa saber: tema versus problema

A primeira coisa que precisa ficar clara é a diferença entre tema de pesquisa e problema de pesquisa. São conceitos distintos que com frequência são tratados como sinônimos, e essa confusão é a origem de muito sofrimento nos primeiros meses da pós-graduação.

Tema é o território. É o campo no qual você vai operar, o conjunto de fenômenos, conceitos ou práticas que você vai investigar. "Violência doméstica", "aprendizagem de línguas estrangeiras", "gestão de resíduos sólidos em municípios de pequeno porte", "saúde mental de pós-graduandos"... todos são temas. São territórios legítimos e relevantes para a pesquisa. Mas nenhum deles é um problema.


Problema de pesquisa é a questão não resolvida dentro do território. É a tensão, a lacuna, a contradição, o fenômeno que ainda não tem explicação adequada na literatura. É o que justifica a existência da sua pesquisa e a razão pela qual o mundo precisa que você investigue isso especificamente, dessa forma específica, neste momento.


A diferença na prática: pesquisar saúde mental de pós-graduandos é tema. Investigar por que intervenções de suporte emocional em programas de pós-graduação têm baixa adesão mesmo quando os pesquisadores relatam alta necessidade percebida é um problema de pesquisa. Ele identifica uma tensão real, aponta para uma lacuna no conhecimento existente e cria a necessidade da investigação.


Um tema pode durar uma carreira inteira. Um problema de pesquisa é específico o suficiente para ser respondido num prazo razoável, e é essa especificidade que o torna pesquisável.


Por que você não vai encontrar o problema, mas construí-lo


A metáfora que circula informalmente em muitos programas é a da caça ao tesouro, como se o problema de pesquisa estivesse escondido em algum lugar esperando para ser descoberto por quem lê o suficiente, perguntar ao orientador certo, ou participar do evento acadêmico correto.

Essa metáfora é prejudicial porque implica passividade. Você está à espera de algo externo. E enquanto espera, o tempo passa, a culpa cresce, a relação com o orientador fica tensa, e a sensação de que "todo mundo tem um problema de pesquisa menos eu" começa a comprometer não só a produção mas a saúde mental.


O problema de pesquisa não é encontrado. Ele é construído a partir do que você leu, das tensões que você identificou, das perguntas que você formulou e reformulou até chegar em algo específico o suficiente para ser investigado e relevante o suficiente para justificar o investimento.


Isso tem uma implicação prática importante: a postura que a pós-graduação exige não é a de alguém que procura, mas a de alguém que decide. Você decide que esta tensão é relevante. Você decide que esta lacuna merece ser investigada. Você decide que esta é a pergunta que você vai responder.


Essa decisão não é arbitrária, ela precisa ser sustentada pela literatura, justificada pela relevância teórica ou prática, e delimitada de forma que seja exequível. Mas ela parte de você. É uma construção ativa, não uma descoberta passiva.


Como o doutorado redefine a sua relação com o conhecimento


O ingresso no doutorado marca uma transição que raramente é nomeada de forma explícita nos processos seletivos: você deixa de ser consumidor de conhecimento e passa a ser produtor.


Na graduação e em boa parte do mestrado, a relação com o conhecimento é predominantemente receptiva. Você lê o que outros produziram, aprende os debates, domina as metodologias. O papel é principalmente de aprendiz.


No doutorado, a relação muda. Você ainda precisa ler e aprender, isso não para. Mas agora você é também quem vai identificar o que ainda não existe, formular a pergunta que ainda não foi feita, ou aplicar uma perspectiva que ainda não foi testada num contexto específico. A contribuição original ao conhecimento, que é a definição formal de uma tese de doutorado, pressupõe que você seja quem define o que falta, não quem espera que outros digam onde está a lacuna.

Essa transição é cognitivamente exigente e emocionalmente desafiadora. Ela exige que você desenvolva o que pode ser chamado de autonomia intelectual: a capacidade de formular posições próprias, sustentar argumentos originais, e tomar decisões sobre a direção da pesquisa sem depender de validação externa a cada passo.

O orientador orienta. Ele não decide. E quando o orientando espera que o orientador forneça o problema de pesquisa, a relação deixa de funcionar como deveria, porque ela foi desenhada para um pesquisador que já está construindo, não para um que ainda está esperando.

Cinco movimentos para construir o seu problema

O problema de pesquisa não cai do céu, mas também não precisa ser inventado do zero. Existe um processo pelo qual ele se constrói. Aqui estão cinco movimentos que funcionam na prática.

  1. Primeiro movimento: leia os artigos recentes e vá direto para o final.

Pegue os artigos publicados nos últimos dois ou três anos nas revistas mais relevantes da sua área. Não leia tudo de cara. Vá para as considerações finais, especificamente para as seções de limitações do estudo e sugestões para pesquisas futuras.

Os próprios autores estão dizendo onde a lacuna está. Eles fizeram a pesquisa, encontraram os limites do que conseguiram responder, e apontaram para onde alguém precisaria ir em seguida. Isso é um mapa. Use-o.

  1. Segundo movimento: mapeie as tensões, não os consensos.

Quando você lê a literatura de uma área, existe uma tendência natural de buscar o que está estabelecido (o que todos concordam, o que já foi provado, o que é consenso). Mas o problema de pesquisa quase nunca mora no consenso. Ele mora na tensão.

Procure onde os autores discordam. Onde dois estudos chegaram a resultados diferentes sobre o mesmo fenômeno. Onde uma teoria parece não explicar adequadamente o que está sendo observado na prática. Onde um achado em um contexto não se replicou em outro. Essas tensões são o embrião do problema.

  1. Terceiro movimento: cruze a literatura com a realidade.

Frequentemente, o problema de pesquisa está no gap entre o que a teoria propõe e o que está acontecendo no mundo real. Uma política que a literatura diz que deveria funcionar mas que os dados mostram que não está funcionando. Um comportamento que os modelos teóricos não preveem mas que você observa acontecendo consistentemente.

Acompanhe o que está acontecendo na sua área fora da academia, em jornais especializados, em relatórios de organizações, em debates de política pública. Frequentemente é lá que aparecem os problemas que a academia ainda não chegou.

  1. Quarto movimento: participe de bancas e seminários com olhos de pesquisador.

Assistir bancas de qualificação e defesa de colegas, mesmo de pesquisas que não têm relação direta com o seu tema, é uma das formas mais subestimadas de encontrar inspiração para um problema de pesquisa. Os membros da banca frequentemente apontam o que ficou de fora, o que poderia ter sido investigado, o que o trabalho abre sem resolver. Esses apontamentos são pistas valiosas.

  1. Quinto movimento: formule e reformule em perguntas.

Quando você tiver identificado uma tensão ou lacuna que parece promissora, formule em forma de pergunta. Uma boa pergunta de pesquisa tem três características: é específica o suficiente para ser respondível, é aberta o suficiente para não ter resposta óbvia, e é relevante o suficiente para justificar o esforço de investigação.

Formule a pergunta. Mostre para alguém. Peça que ela diga o que entendeu. Se o que ela entendeu não é o que você quis dizer, reformule. Repita até que a pergunta seja clara sem precisar de explicação adicional.

O teste final: a pergunta ABT

Randy Olson, em Houston, We Have a Narrative, propõe uma estrutura de três movimentos que é extraordinariamente útil para testar se um problema de pesquisa está bem formulado. Ele chama de ABT — And, But, Therefore.

And estabelece o contexto: o que se sabe, o que já existe, o que está dado. But introduz a tensão: o que ainda não se sabe, o que não foi resolvido, onde está a lacuna. Therefore apresenta o que a pesquisa vai fazer com essa tensão.

Se você consegue formular o ABT da sua pesquisa em uma ou duas frases, o problema está bem articulado. Se você não consegue, existe trabalho de clarificação a ser feito, e é melhor descobrir isso antes de entrar em campo do que depois de coletar dados sem uma pergunta clara.

Experimente agora. Abra um documento e escreva: "Sabe-se que [contexto], mas [tensão/lacuna], portanto esta pesquisa [o que você vai investigar/responder]."

Se a frase sai com clareza, você está no caminho certo. Se ela não sai, você ainda está no território do tema e precisa seguir trabalhando até chegar no problema.

O que muda quando você para de procurar e começa a construir

A mudança de postura, de quem procura para quem define, tem consequências que vão além da produção acadêmica. Ela muda a relação com a pesquisa, com o orientador, e consigo mesmo.

Quando você está esperando encontrar, qualquer período sem o "clique" vira evidência de inadequação. Você não encontrou ainda, portanto algo está errado com você.

Quando você entende que está construindo, os mesmos períodos viram parte do processo. Você está lendo, mapeando tensões, reformulando perguntas. O trabalho está acontecendo, mesmo que o produto final ainda não seja visível.

Essa mudança de interpretação não é cosmética. Ela tem impacto direto na saúde mental durante a pós-graduação. E saúde mental, como a pesquisa publicada na Nature Biotechnology em 2018 demonstrou com dados de mais de 2.000 pós-graduandos, é uma variável que afeta diretamente a produção acadêmica e a probabilidade de conclusão.

Você não vai encontrar o problema de pesquisa. Você vai construí-lo. E a construção começa quando você decide parar de esperar e começar a trabalhar.

Referências

Olson, R. (2015). Houston, We Have a Narrative: Why Science Needs Story. University of Chicago Press.

Evans, T. M., Bira, L., Gastelum, J. B., Weiss, L. T., & Vanderford, N. L. (2018). Evidence for a mental health crisis in graduate education. Nature Biotechnology, 36(3), 282–284.

Comentários


bottom of page